sono do bebê: por que não deixamos as noites inteiras para lá?

Quem acompanha os meus relatos sabe que tivemos muita dificuldade com o sono do nosso filho. Não foram poucas as vezes que me perguntaram se ele já estava dormindo a noite toda e eu lá, com cara de tacho, tinha que responder que “ainda não”.

Algo que me intrigou depois de me tornar mãe foi a recorrência de algumas (mesmas) perguntas nos primeiros meses de vida de um bebê: “Dorme bem? Já dorme a noite toda? É bonzinho? Chora muito?” Praticamente em todos os encontros tive que responder essas mesmas perguntas. Tudo que eu menos queria naquele momento era falar sobre o fato de eu estar sem dormir há tanto tempo e quase surda de tanto que meu filho chorava. Só conseguia pensar: “por que não deixam as noites inteiras pra lá?”

Não estou dizendo que não se deva perguntar a respeito desses assuntos. Até por que essas são uma das únicas coisas que se pode conversar sobre um recém-nascido que não envolva cheiros e texturas estranhas. Só gostaria de sugerir que essas perguntas fossem ligeiramente reformuladas por conta dos motivos que vou listar abaixo.

Bebês recém-nascidos não costumam dormir mais do que três horas seguidas a noite

Primeiro, a maioria dos recém-nascidos não dorme mais do que 3 horas seguidas antes de 8 semanas de vida. Mesmo depois de oito semanas de vida, muitos continuam acordando pra mamar até duas vezes a noite, voltam a dormir logo depois e isso – pasmem – significa dormir bem! Segundo, muitas crianças, principalmente amamentadas no seio da mãe, não dormem mais de 6 horas seguidas antes do primeiro ano de vida. Inclusive, no incrível mundo dos bebês, uma noite inteira significa, muitas vezes, 6 horas seguidas de sono.

Então você vê como perguntar se o bebê dorme a noite inteira pode levar os pobres pais a expectativas irreais? Você acaba de lembra-los que “não, o bebê deles não dorme ainda – consequentemente eles também não – e provavelmente demorará algum tempo antes que isso possa acontecer”. Além disso, você acabou de alimentar um bichinho muito feio que sonda a maternidade que é a comparação do seu filho com o filho alheio: “Será que já era pro meu filho estar dormindo a noite inteira?” Essa situação é piorada quando não só você pergunta sobre a noite inteira, como também alega que o seu filho/conhecido/bebe-que-você-ouviu-falar já dorme 12 horas seguidas.

Bebês choram muito e às vezes sem motivo aparente

Quando falamos de choro de bebê então, é unânime entre pais e mães: bebês choram e muito (e algumas vezes sem motivo aparente). Alguns em uma proporção mais exagerada e outras menos, mas todos choram. E o choro exacerbado em nada tem haver com o bebê ser bonzinho ou não. Particularmente, não acredito que nenhum bebê recém-nascido está chorando horas a fio com o propósito de tirar os seus pais do sério e que nenhum bebê já nasce “bem-comportado”.

Cada ser humano nasce com uma gama de características únicas inerentes a eles que incluem timidez, extroversão, insegurança, ousadia, etc. Todas essas características já estão se manifestando – muitas vezes de forma exacerbada e sem controle – em um bebê recém-nascido. O mistério da vida humana é tão respeitado quanto cada nuance de personalidade que não tentamos encaixar em caixinhas desde que um ser humano sai do ventre materno.

Muito se fala sobre dicas para pais e mães de como fazer seu filho dormir melhor ou chorar menos (não que muitas delas façam alguma diferença mas esse não é o foco desse post rs). Então, enquanto os pais e mães se ocupam dessas dicas, quero deixar para você – amigo, parente, conhecido – algumas dicas de ouro para também ajuda-los com relação a esses assuntos.

Primeiro, se o bebê já dorme a noite inteira (lembrando que esses são raras exceções) os pais vão dar um jeito de falar sobre isso em algum momento da conversa, então você nem precisa perguntar! Isso por que a “noite inteira” parece ser o selo de sorte-grande-estou-fazendo-tudo-certo-meu-filho-é-excepcional e qual pai e mãe não querem que os outros saibam disso, não é?

Outra dica: olhe bem nos olhos dos pais, utilize-se de uma grande ferramenta facilitadora de relacionamentos humanos chamada empatia e perceba: Existem olheiras? O olhar está apático? Se sim, melhor do que perguntar se o bebê está dormindo bem – que é quase o mesmo que estar dizendo “nossa, você está com cara de acabado e de quem não dorme há dois anos” – ofereça uma ajuda: “Você gostaria que eu ficasse na sua casa à noite enquanto o seu bebê ‘dorme’ pra vc dar uma passeada e espairecer um pouco?”

Terceiro, ao encontrar seu amigo(a) recem-pai/mãe deixe as noites inteiras para quando eles quiserem falar com você sobre isso (que provavelmente será só quando o filho deles passar a dormir) e simplesmente pergunte: “E aí? Como vocês estão? Tem sido tão difícil quanto dizem que é?” Pronto! Você acabou de ganhar vários pontos simplesmente por ter a) reconhecido a existência dos pais nesse momento, b) confirmado que sim, esse começo é difícil mesmo c) ao não citar as noites inteiras reforçar que ninguém espera – mesmo – que o seu filho já durma a noite inteira.

Que tal também deixarmos os rótulos de lado, principalmente nesse comecinho de vida? Vamos adentrar nesse ambiente de mistério e observar esse pequeno milagre da vida que se desvela aos nossos olhos e dar tempo ao tempo para compreende-lo melhor. Por isso, quando se sentir tentado a perguntar se o bebê é bonzinho, por que não perguntar: “O que vocês já tem percebido a respeito dele?” Prometo que você vai se admirar de ouvir quão maravilhoso e doloroso é o processo de primeiro encontro e descoberta da personalidade de um ser humano que acaba de nascer.

Como cereja do bolo, posso sugerir mais um adendo? Fale para esses pais que eles estão fazendo um bom trabalho. Independente de você concordar ou não com algumas escolhas que eles estão fazendo, nesse momento esses pais precisam mais de um incentivo do que um conselho, então dê um abraço apertado, olhe naqueles olhos cansados e diga: “Está tudo bem! Vocês estão fazendo um bom trabalho!” Por que pode ter certeza que eles estão dando o melhor que eles podem dar, mesmo que seus filhos ainda não durmam a noite toda e chorem o dia inteiro.

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