quando um ser humano aprende a andar

É algo muito especial pensar que aquela criaturinha de 50 cm com jeitinho desengonçado e olhar perdido iria se tornar, em apenas um ano e alguns meses, uma pessoinha cheia de gostos, que anda e se expressa. É tanto aprendizado em tão pouco tempo!

O Gabriel não foi um bebê que alcançou os marcos de desenvolvimento antes da hora. Muito pelo contrário, ele demorou alguns meses a mais para rolar, sentar, engatinhar e – não seria diferente – andar. Me lembro como se fosse hoje como eu fiquei preocupada no começo por ele não demonstrar interesse em desenvolver as habilidades motoras no tempo que seria considerado “normal”. Eu li a respeito de como estimulá-lo e fazia questão de incentivá-lo sempre que possível, mas ele se frustrava com a barra que eu estava forçando.

É impressionante como hoje, quando ele já consegue expressar um pouco mais como se sente, eu consigo ler de maneira muito mais clara o nenémzinho choroso com quem eu convivi nos seus primeiros meses de vida. Por exemplo, vejo como o Gabriel, antes de entrar debaixo de uma mesa, calcula meticulosamente o quanto precisa abaixar a cabeça para não batê-la na quina. Vejo também como, mesmo andando sozinho, não se distancia muito da gente e quer andar de mãos dadas quando está em um ambiente novo e desconhecido. Ele é detalhista, cuidadoso e sensível. É sorridente, divertido e simpático, mas desconfiado e difícil de ter sua confiança conquistada. Hoje entendo que ele é um menininho cauteloso e inseguro que precisou desse tempo a mais antes de cada passo para se sentir confiante o suficiente para se arriscar e tentar algo novo. Esse mesmo menininho já estava naquele recém-nascido que não queria ficar longe da gente de jeito nenhum e que se esgoelava se acordasse sozinho no berço no meio da noite escura.

Essa percepção se realçou especialmente no processo do Gab começar a andar sozinho. Ele já ensaiava seus passinhos há muito tempo (e já os fazia bem firmemente), mas cada queda era muito frustrante, inspirava choros intermináveis e fazia com que ele passasse dias sem se arriscar novamente. Não o forçamos a nada, acolhíamos sua dor e esperávamos que ele se mostrasse disposto novamente a tentar. E assim ficamos, durante dois meses, esperando pelo dia que ele iria finalmente criar a coragem necessária para desbravar e sair andando por aí.

Mas o que me marcou mais profundamente nesse processo foi que, toda vez que ele caía e começava a chorar copiosamente, ele me mostrava um pouco mais de mim mesma. Via a Luiza exigente consigo mesma e que não se permite errar. Via a Luiza que tem medo de se arriscar e que prefere nem mesmo tentar se tiver o risco de dar errado. Enquanto esperava que meu filho criasse a coragem de dar o próximo passo, vi que aquele menininho inseguro e cauteloso era o meu reflexo no espelho. E a verdade é que, quando esse ser humaninho aprendeu a andar – depois de muito se dar novas chances – ele me ensinou uma das lições mais preciosas da minha vida e que eu me relembro diariamente: para começarmos a andar, temos que primeiro aprender – e perder o medo de – cair.

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