o eterno dilema de ser uma mãe que trabalha fora

uma das maiores crises que eu tive quando voltei a trabalhar foi perceber que eu, agora mãe, não conseguia mais ser a profissional que era antes e, voltando a ser profissional, não conseguia continuar sendo a mãe que vinha sendo para o meu filho nos sete meses de dedicação total de licença maternidade.

me sentia medíocre nas duas funções e isso me fazia muito mal. enquanto estava no trabalho, me sentia culpada por não estar com meu filho e, quando chegava em casa, me sentia frustrada por não ter conseguido me entregar no trabalho ao longo do dia como gostaria.

fiquei esperando pelo dia em que esse dilema finalmente se resolveria pra mim e ele nunca chegava. não chegava por que enquanto estivesse me cobrando com expectativas irreais nessas duas funções, a conta nunca fecharia.

eu não conseguiria ser a mãe que cozinha comida fresca e orgânica todos os dias, que fica em casa toda vez que o filho está com febre, que está sempre disposta a ler pra ele antes de dormir e ser uma profissional competitiva no mundo corporativo ao mesmo tempo. eu não conseguiria ser uma profissional que tem os resultados que eu tinha antes quando eu vivia e respirava meu trabalho 24h por dia e também ser responsável por outra vida que não só a minha.

o primeiro passo que teria que dar para lidar melhor com esse dilema seria abrir mão das minhas expectativas de “mãe ideal” e “profissional ideal” e entender que, na realidade, essas visões eram irreais. não podia mais esperar perfeição, senão iria para sempre me sentir culpada e frustrada em algum aspecto.

além de desistir da busca pela perfeição, tive que aceitar que eu não era a única capaz de suprir a necessidade de afeto e cuidado do meu filho e permitir que ele se vinculasse profundamente com outras pessoas que não só a mim. a gente vem de uma toada de livre demanda e dedicação total e pode achar que eles não ficam bem sem a gente, mas no fundo somos nós que não conseguimos mais ficar bem sem eles. depois de me libertar da minha necessidade de ser tudo para o meu filho, percebi que quanto mais gente para amá-lo, melhor.

tive que me respeitar e me dar tempo para me conhecer novamente como profissional-que-agora-é-mãe e mãe-que-voltou-a-ser-profissional e, nesse processo, entendi que pra conta fechar, eu tinha duas opções: deixar de querer ser as duas coisas ao mesmo tempo ou fazer concessões em cada uma das funções.

como já havia entendido (em outro momento) que eu sou o tipo de pessoa que sente prazer em trabalhar, que essa era uma parte que eu não gostaria de abrir mão da minha vida e abrir mão de filho nunca esteve em questão, me restava a segunda alternativa.

para não viver continuamente culpada e frustrada, eu teria que entender então quais eram os valores que eu não abria mão como mãe e qual era a realização que eu não abria mão como profissional e cortar o que não encaixava mais nessa visão. foi um processo doloroso, de voltar a essência e ao que realmente importa e que me ajudou a lidar muito melhor com o dilema, mas não foi algo que o resolveu por completo.

percebi que esse seria um dilema eterno pra mim e que eu precisaria enfrentá-lo diariamente. todo dia, eu tenho que me relembrar de quais são os meus limites, quais são as minhas motivações e tenho que basear minhas ações e escolhas ao longo do dia nessa visão. todo dia, eu tenho que me relembrar que qualquer escolha tem os seus ganhos e perdas, não me deixar seduzir pra ilusão de achar que alguma outra escolha é isenta de dores e me responsabilizar pela escolha que eu fiz, consciente e intencional, de trabalhar e ser mãe ao mesmo tempo.

ser mãe faz de mim uma profissional melhor. talvez não tão focada como antes, mas em contrapartida mais humana, empática, aberta ao inesperado, multitarefa e resiliente. ser profissional faz de mim uma mãe melhor, mais segura, confiante do seu valor, realizada e, por incrível que pareça, mais sã e equilibrada.

a cada dia me convenço mais que não dá para trabalhar como se não tivesse filhos e ser mãe como se não trabalhasse fora. não só não dá, como não é saudável para nós mulheres, para nossos filhos e nossos ambientes de trabalho. temos que compreender que, para ser uma profissional-que-é-mãe realizada, também é preciso ser uma mãe-que-trabalha feliz e vice versa. quão mais realistas forem nossas expectativas de conciliar maternidade e carreira, mais leves e produtivos serão nossos dias, mais acolhedores serão nossos ambientes de trabalho e menos pesado o eterno dilema de ser uma mãe que trabalha.

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  • Texto incrível!!
    Tudo o que eu precisava ler hoje…
    Estou passando por esse dilema, volto a trabalhar daqui a 15 dias e sinto uma frustração enorme em não poder continuar acompanhando tooodas as conquistas e derrotas dos meus filhos (também tenho 2, um de 2 anos e uma de 2 meses), me sinto mal porque outra pessoa vai lidar com as dificuldades deles e vai suprir as necessidades deles de uma forma diferente da minha. Ao mesmo tempo me sinto frustrada por não ser mais a mulher independente e cheia de informações que era, por exercer “apenas” o papel de mãe, por não ter mais nada pra conversar a não ser cor de cocô e métodos de aprendizado.
    Precisava te encontrar aqui no blog pra trazer um pouco de sanidade pra minha mente e me fazer acreditar que eu não estou maluca, realmente é possível querer muito as duas coisas!
    Obrigada pelas palavras, fico aguardando por mais sobre o assunto ?